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29 MAI
[Reaprender a gratuidade]

Reaprender a gratuidade

“De graça recebestes, de graça deveis dar”, eis a recomendação do Mestre Jesus, dirigindo-se a seus discípulos, pouco antes de enviá-los em missão. Uma exortação com força de interpelação, remetendo às lições do Sermão da Montanha, compartilhadas com maestria por Jesus Cristo. A gratuidade é, pois, virtude essencial. Mas muitos vão considerar atitude inusitada incluí-la nos protocolos de providências e recomendações para este momento pandêmico. Provocará questionamento dos que calculam valores e resultados a partir de dividendos a serem recebidos, de quem só quer ampliar, sempre mais, a própria lista de itens a serem consumidos. Reconhecer a importância da gratuidade parece também algo distante de ambientes do poder marcados pela dinâmica do “toma lá da cá”.  Pode, ainda, ser considerado tema secundário quando são exigidas urgentes soluções sanitárias e econômicas para enfrentar este momento de pandemia. Mas a ausência da gratuidade acirra violências, impede o surgimento de um novo ciclo para a humanidade.

Constata-se o grave distanciamento da sociedade atual das atitudes orientadas pela gratuidade quando se verifica, por exemplo, a crescente disseminação de notícias falsas. Mentiras elaboradas e propagadas em larga escala para fragilizar instituições, desmoralizar pessoas e incitar o ódio e, assim, de modo imoral, gerar algum ganho pessoal aos seus disseminadores.  Até discursos sobre o ciclo novo a ser vivido pela humanidade, capaz de livrá-la do caos, reservam espaço minúsculo ao tema da gratuidade. Mas essa virtude, de caráter espiritual e humanitário, é determinante. Contém as propriedades para recuperar o altruísmo que ilumina olhares e fecunda a inteligência possibilitando mais assertividade na tarefa de repensar os caminhos da humanidade.

Embora importante, a dinâmica da gratuidade ausentou-se, velozmente, do cotidiano. Deixou de ser fermento no coração humano. Chegou-se ao extremo de até se pensar que gratuidade seja sinônimo de ingenuidade ou falta de esperteza. Equivocadamente, passou-se a considerar como “virtude” o que se opõe à gratuidade: conseguir manipular tudo em troca de algum ganho pessoal. Essa perspectiva egoísta é permissiva até com a distorção de funcionamentos sociais, políticos, jurídicos, religiosos e culturais para se conquistar benesses, vantagens, dinheiro. A raiz dos venenos que corroem o sentido da gratuidade merece ser estudada e conhecida para, assim, ser devidamente combatida, pois essa virtude é indispensável à vida cotidiana – a gratuidade gera equilíbrio. Sua ausência alimenta patologias, a exemplo das mentes dominadas por processos sedutores e hegemônicos que levam ao consumo sem limites.

Impressiona o domínio do egoísmo na configuração de hábitos da civilização contemporânea. As relações são orientadas e estabelecidas a partir de um jogo de interesses – circunstâncias, situações e pessoas são reduzidas a instrumentos para se alcançar o que se quer. Um sintoma dessa situação: filhos que não conseguem cuidar de seus pais idosos e dependentes porque querem permanecer em situação de conforto. Falta-lhes a virtude da gratuidade, imprescindível para que uma pessoa seja capaz de cuidar, sem nada receber. Não conseguem amparar até mesmo quem sempre lhes dedicou especial cuidado. Da mesma forma, falta gratuidade em muitas relações de pessoas que se dizem amigas. E a amizade sem gratuidade é incapaz de inspirar palavras certas, necessárias, com força para devolver alento, sustentar interioridades, no contexto relacional. Sem gratuidade, não se enxerga o essencial nos vínculos fraternos, pois as atitudes deixam de ser orientadas pelos princípios da fidelidade e da generosidade.

A ausência da gratuidade configura-se em desafio também na relação do ser humano com o meio ambiente, o que se comprova nas atitudes que depredam a Casa Comum. Os resultados são esgotamentos da natureza, que reage agressivamente. A natureza é comprovadamente pródiga, compartilha seus bens, mas requer que a humanidade reconheça: tudo está interligado.  Exemplo criminoso da falta desse reconhecimento é a mineração que se coloca no horizonte hermético das lógicas do lucro e da idolatria do dinheiro. Historicamente, esse tipo de empreendimento oferece uma lista menor de benefícios diante do muito que extrai da natureza, provocando tragédias, cenários desoladores, empobrecimentos.

Uma conclusão precisa ser alcançada: sem reaprender o sentido da gratuidade a humanidade avançará nos seus adoecimentos pandêmicos gravíssimos, comprovando que não adianta os “bolsos cheios” de alguns enquanto a grande maioria vive na miséria. Esse cenário leva ao fracasso humanitário – é receita homicida. Gratuidade é exigência na pauta das aprendizagens necessárias à construção urgente de um novo tempo. Nesse horizonte educativo fundamental, torna-se importante recorrer à maestria de Jesus, de modo especial aos seus ensinamentos reunidos no Sermão da Montanha, narrado pelo evangelista Mateus, capítulos quinto ao sétimo. O Sermão da Montanha apresenta dinâmicas que podem levar mentes e corações a redescobrirem riquezas indispensáveis. Entre as preciosidades está o remédio eficaz no combate ao adoecimento da humanidade: reaprender a gratuidade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)